No dia 19 de abril é comemorado o que se conhece como “Dia dos povos indígenas” (anteriormente chamado de “Dia do índio até 2022). Em 9 de Agosto foi criado o “Dia internacional dos povos indígenas” (instituída pela ONU em 1994). Estas duas datas comemorativas, contudo, existem no intuito de nos conscientizarmos sobre uma constante batalha que ocorre todos os dias, a luta do povo indígena.
Publicado originalmente pela Vertigo Comics entre 2007 e 2012, com escrita de Jason Aaron e com ilustração de R. M Guéra, Escalpo se passa em uma fictícia reserva indígena de nome “Rosa da Pradaria” na Dakota do Sul onde habita o povo indígena Sioux.
Neste cenário, acompanhamos personagens diversos que precisam lidar com uma constante realidade de violência e condições diversas que tornam a vida dos cidadãos da reserva cada vez mais dificultosa. A série em quadrinhos foi parcialmente inspirada pelo caso de Leonard Peltier, um nativo americano ativista pelos direitos civis indígenas, condenado e preso em 1977 pelo assassinato de dois agentes do FBI na Reserva Indígena Pine Ridge em 1975.
A condenação e prisão de Leonard Peltier por muitos duvidosa e até mesmo farsante, com diversas alegações sobre sua inocência, apelos estes que foram por 50 anos ignorados, até sua sentença finalmente passar por uma comutação, permitindo que ele passasse o restante de sua sentença (perpétua) em prisão domiciliar. Grande parte da narrativa acompanha o ponto de vista do personagem Dashiell Bad Horse, filho de nativos americanos Lakota e negligente de suas raízes, na história o mesmo deixou a reserva indígena onde nasceu aos 13 anos, mas retorna 15 anos depois como um agente infiltrado da FBI no intuito de derrubar o líder local da Rosa da Pradaria.

Boa parte do início da narrativa foca em sua perspectiva, acompanhando as mais diversas dificuldades que os cidadãos da reserva são obrigados a enfrentar diariamente tais como a violência do crime organizado, circulação de produtos ilegais, corrupção política e falta de apoio por parte das autoridades maiores estadunidenses. Com o tempo, Dashiell segue uma jornada pessoal para aceitar quem ele é e que de fato pode estar fazendo parte de algo maior, mesmo que contra a sua vontade. Em 2011 a história foi indicada ao Eisner Award, uma premiação existente para distinguir feitos em história de quadrinhos, na categoria “Melhor série“.
O quadrinho conta com 60 capítulos, sendo muito elogiada no decorrer de sua publicação. Apesar de ser uma história em quadrinhos sobre um conto fictício (sendo até a sua reserva não existente) tudo o que compõe toda a história foi baseado em fatos reais, sendo toda a história nada menos do que uma forma ilustrada de uma batalha que o povo indígena tem travado desde os primórdios do colonialismo.
Dentre o que se fala sobre o colonialismo estadunidense, uma das coisas mais memoráveis é o período da “Marcha para o oeste”.
Um processo no qual os EUA, após a sua independência, iniciaram movimentos diversos de conquista e ocupação das terras a oeste das treze colônias que hoje consistem nos Estados Unidos como um todo. Este processo ficou marcado pelos inúmeros conflitos entre o exército dos EUA e povos diversos de nativos indígenas e até mesmo mexicanos. Vale citar o ocorrido de Wounded Knee, um massacre de nativos americanos que aconteceu em 29 de dezembro de 1890.
Hoje se registram aproximadamente 150 mortes sendo homens, mulheres e crianças, apesar de algumas estimativas avaliarem até mesmo um número próximo de 300 mortos. Atualmente temos também a constante lembrança do que foi este período histórico sangrento para os nativos americanos.
O monte Rushmore, o famoso monumento dos Estados Unidos com rostos esculpidos de aproximadamente 18 metros de 4 presidentes, foi feito senão em uma área originalmente de propriedade indígena, mais precisamente a nação Sioux na Dakota do Sul, tomada ilegalmente pelos americanos na década de 1870, após encontrarem ouro na região. São estes e outros ocorridos que marcam a prova dos constantes desafios que o povo indígena precisa constantemente superar unicamente pela motivação de serem reconhecidos e respeitados como povo.
Enquanto isso, aqui no Brasil por sua vez, o contexto e o local são outros, mas as lutas são praticamente as mesmas, em diversas regiões deste país existem casos e mais casos de comunidades indígenas lutando apenas pelo direito da própria dignidade e dia após dia sempre superando um novo desafio, dentre muitos casos, esta é também a situação da comunidade indígena das terras de Tenondé Porã. Tenondé Porã é uma terra indígena de etnia guarani mbiá que ocupa uma área com cerca de 15.970 hectares no município de São Paulo Zona Sul, tendo, em 2015, uma população estimada em 1.175 pessoas.

As tantas lutas desta sociedade indígena já haviam começado ainda na década de 1980, onde batalharam pela demarcação do próprio território, em um período onde as comunidades guaranis já se viam pressionadas pelo constante crescimento urbano da região metropolitana de São Paulo.
Mesmo anos depois da demarcação das terras, sequer se poderia afirmar que esta comunidade teria a sua devida paz. No decorrer dos anos podia se notar uma frequência de notícias envolvendo esta comunidade, todas elas mencionando os constantes embates que ocorriam neste território.
Em 2014 a comunidade se viu obrigada a protestas sobre a sua situação até então negligenciada pelo governo de São Paulo, onde se encontravam com casas e até mesmo escolas em situações descritas como “deploráveis”, dificuldades na emissão de documentos e além disso tudo, tiveram que lidar com o fato de terem se tornado literais atrações turísticas.
Em 7 de janeiro de 2014, o prefeito Fernando Haddad (PT) promulgou a Lei 15.953, que “dispõe sobre a criação do Polo de Ecoturismo nos distritos de Parelheiros e Marsilac até os limites da Área de Proteção Ambiental Bororé-Colônia”, sendo uma destas visitas turísticas nada menos do que a aldeia Krukutu em Tenondé Porã, visita esta que na época de acordo com os próprios habitantes sequer foi negociada.
Já em 2021, foram registrados diversos casos de violência contra os habitantes da comunidade.
Dentre os casos registrados estão intimidações e ameaças verbais, invasões e até uso de armas de fogo com o intuito de intimidação, o motivo maior disto de acordo com os habitantes, teria sido a intenção de pessoas não indígenas de tomar parte das terras de forma ilegal, tentativas estas que tem sido repelida com a já determinação de longa data deste povo. Finalmente em 2025 passou a ser noticiado acerca de ações de combate à violência contra povos indígenas da região. A iniciativa Juruá, desenvolvida pela 6ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), atua no atendimento, acolhimento e orientação das comunidades indígenas da região.

O movimento visa ampliar o acesso à rede de proteção e ao sistema de justiça, enfrentando barreiras históricas como distância geográfica, diferenças culturais, desconfiança institucional e subnotificação de casos de violência doméstica, sexual e institucional. É com certo pesar que podemos concluir quão longa tem sido a luta do povo indígena em um mundo que não faz tanta questão de reconhecer a sua existência, mas é sempre admirável acompanhar e acima de tudo apoiar a determinação que este mesmo povo possui em se manter de pé mesmo diante de constantes desafios.
Não somente a HQ Escalpo é um registro ilustrado desta luta, como também em nosso dia a dia vemos registros desta luta constante e mais combates desta causa ainda sendo registrados atualmente, de um povo que nada menos deseja, senão o simples direito de ser quem são.
